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Segurança Digital

Sob alta tensão: a fronteira invisível que protege — e ameaça — o Brasil digital

domingo, novembro 08, 2026•...
INFRAESTRUTURA CRÍTICA & CIBERSEGURANÇA

Usinas, bancos e hospitais operam cada vez mais conectados à internet. Levantamos o que já foi atacado, o que realmente protege o país hoje e se a inteligência artificial virou uma arma a mais nas mãos de quem quer provocar um apagão, um golpe bilionário ou um blecaute de dados de saúde.

Em 2024, o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) — o órgão que coordena a energia que chega a cada tomada do país — bloqueou cerca de 539 milhões de tentativas de invasão à sua própria rede corporativa. É um número que não aparece em nenhum boletim que o brasileiro médio lê, mas que diz tudo sobre o tamanho do campo de batalha que hoje cerca a infraestrutura essencial do país.

Energia, sistema financeiro e saúde pública têm algo em comum: são serviços que, se param, param o país junto. E os três viraram, nos últimos anos, alvo recorrente de ataques — uns feitos por quadrilhas de ransomware em busca de resgate em dinheiro, outros por grupos ligados a espionagem de Estado, e um número crescente, segundo o Fórum Econômico Mundial, com algum grau de apoio de inteligência artificial.

A pergunta que motiva esta reportagem é simples de fazer e difícil de responder: o Brasil está, de fato, preparado?

Um setor, três alvos — e uma pressão que só cresce

Hoje, segundo relatórios da indústria de cibersegurança, o setor de energia é globalmente o terceiro mais visado por criminosos digitais, atrás apenas de governo e finanças. Em uma pesquisa com empresas de 40 países, incluindo o Brasil, 80% relataram ter sofrido algum incidente cibernético recente. O diagnóstico específico do país aponta um ponto fraco concreto: a maturidade de segurança é desigual, concentrada nas grandes geradoras e transmissoras, e muito mais frágil fora delas — em pequenas distribuidoras, cooperativas e operadores regionais.

No sistema bancário, o chamado "Pix" virou, ao mesmo tempo, orgulho de engenharia nacional e novo alvo favorito. E na saúde, hospitais já disputam com bancos o topo da lista de ambientes mais visados por grupos de ransomware, segundo a Kaspersky — justamente porque dados médicos são caros na dark web e porque hospitais, sob pressão operacional, tendem a pagar resgate mais rápido.

EXPLORE OS DADOS

Qual setor te preocupa mais?

Toque em um setor crítico brasileiro e veja o retrato resumido da exposição a ataques.

O que já aconteceu: a Eletronuclear (2021) e a Energisa (2020) sofreram ataques que atingiram sistemas administrativos; o ONS confirmou o bloqueio de centenas de milhões de tentativas de invasão só em 2024; subestações do Paraná e Rondônia registraram incidentes em linhas de transmissão de alta tensão.

Ponto fraco: convergência entre TI (redes administrativas) e OT (sistemas que de fato operam usinas e subestações) — 96% dos incidentes em ambientes operacionais, segundo a TXOne Networks, começam por uma porta de entrada na TI.

Exposição percebidaAlta

O que já aconteceu: em 2025, a C&M Software — empresa que conecta bancos e fintechs ao Pix — foi invadida em um ataque que desviou cerca de R$ 800 milhões (estimativas de investigadores chegam a R$ 3 bilhões), considerado o maior já registrado contra o sistema financeiro nacional. Em 2026, o BTG Pactual precisou suspender o Pix após um desvio de R$ 100 milhões, e o Banco do Nordeste também suspendeu temporariamente o serviço.

Ponto fraco: não é o Pix do Banco Central em si — considerado robusto — mas os elos intermediários: prestadoras de tecnologia menores, credenciais de funcionários e ambientes de nuvem de bancos e fintechs.

Exposição percebidaMuito alta

O que já aconteceu: em dezembro de 2021, o Ministério da Saúde foi atacado pelo grupo Lapsus$, que alegou ter copiado e apagado 50 terabytes de dados; o site, o ConecteSUS e os sistemas de certificado de vacinação ficaram fora do ar por dias. Em 2025, um instituto que administra unidades públicas de saúde em vários estados também sofreu um incidente de segurança.

Ponto fraco: dados de saúde são especialmente valiosos na dark web e, segundo a Kaspersky, hospitais estão entre os ambientes mais visados globalmente, logo depois do setor financeiro e de seguros.

Exposição percebidaAlta

O sistema elétrico brasileiro é "analógico" o suficiente para se proteger?

Essa é uma crença comum — e só parcialmente verdadeira. O Sistema Interligado Nacional (SIN) conecta mais de 145 mil km de linhas de transmissão em alta tensão a cerca de 170 GW de usinas geradoras espalhadas pelo país. Partes dele, especialmente em subestações mais antigas e em áreas remotas, ainda operam com equipamentos eletromecânicos e sinalização analógica — o que, por acidente, reduz a exposição direta à internet em certos pontos da rede.

Mas essa proteção "por obsolescência" está desaparecendo rápido. O setor vive, segundo a Aneel e o ONS, uma digitalização acelerada: redes inteligentes (smart grids), geração distribuída, sensores industriais conectados (IoT industrial) e sistemas de supervisão e aquisição de dados — os chamados SCADA — que hoje controlam boa parte das decisões operacionais em tempo real. Especialistas citam com frequência o caso do vírus Stuxnet, de 2010, que sabotou centrífugas nucleares no Irã ao atingir exatamente esse tipo de sistema, como o exemplo clássico do que pode acontecer quando um ambiente industrial crítico é alcançado digitalmente.

145 mil kmde linhas de transmissão no SIN
170 GWde capacidade instalada conectada
539 mide ataques bloqueados pelo ONS só em 2024

A resposta mais honesta, portanto, é: o Brasil não está protegido por ser analógico — está, aos poucos, deixando de ser analógico, e a proteção real passou a depender de regras, segmentação de redes e investimento, não da sorte de ainda ter equipamento antigo. Em 2024, durante uma grande falha cibernética global que afetou sistemas no mundo todo, a Aneel e o ONS informaram que nenhum sistema de operação do SIN foi impactado — um indício de que, hoje, o isolamento crítico das redes de operação (separadas das redes administrativas) é o que de fato segura a barra, mais do que qualquer analogismo tecnológico.

"O ataque raramente começa com um golpe direto a um equipamento crítico, mas sim pelo uso da rede administrativa como porta de entrada."

A inteligência artificial virou arma — dos dois lados

Segundo o Global Cybersecurity Outlook 2026, do Fórum Econômico Mundial, 94% dos profissionais de segurança consultados apontam a inteligência artificial como o fator mais importante de mudança no cenário de ciberameaças neste ano, e 87% dizem que as vulnerabilidades ligadas a IA são o risco que mais cresce. Especialistas do setor elétrico brasileiro já alertam: hoje, "com algumas instruções digitadas, é possível criar um ataque contra um sistema crítico" — algo que antes exigia meses de conhecimento técnico especializado.

O relatório do Fórum também traz um dado que deveria preocupar o Brasil diretamente: enquanto 84% dos entrevistados no Oriente Médio e Norte da África confiam na capacidade de seus países de responder a um ataque de grande escala contra infraestrutura crítica, na América Latina e Caribe essa confiança cai para apenas 13%.

GRÁFICO INTERATIVO — TOQUE OU PASSE O MOUSE EM CADA BARRA

Confiança na resposta nacional a um ataque cibernético de grande escala contra infraestrutura crítica

0% 50% 100% Oriente Médio e Norte da África: 84% de confiança 84% Oriente Médio & N. da África Média global: 45% de confiança 45% Média global América Latina e Caribe: 13% de confiança 13% América Latina & Caribe
Toque em uma barra para ver o detalhe aqui.

Fonte: World Economic Forum, Global Cybersecurity Outlook 2026. Percentual de líderes do setor privado que confiam na capacidade de resposta de seu país.

Do outro lado da mesma moeda, a IA também está sendo usada para defender. Soluções de automação já ajudam a identificar comportamento anômalo em redes industriais mais rápido do que qualquer equipe humana conseguiria — algo considerado essencial justamente porque, em ambientes de infraestrutura crítica, não é possível simplesmente instalar um antivírus em cada sensor, válvula ou equipamento hospitalar conectado.

O que já existe para proteger o sistema elétrico (e o resto) no Brasil

Ao contrário do que a sensação de vulnerabilidade sugere, o Brasil não partiu do zero. Depois do ataque à Eletronuclear, em fevereiro de 2021, o ONS publicou a Rotina Operacional RO-CB.BR.01, criando pela primeira vez controles mínimos obrigatórios de cibersegurança para quem opera o SIN. Meses depois, em dezembro de 2021, a Aneel emitiu a Resolução Normativa nº 964, obrigando geradoras, transmissoras e distribuidoras a adotar uma política formal de segurança cibernética, inspirada em normas internacionais como a ISO/IEC 27019 — o padrão de segurança da informação específico para o setor de energia.

No sistema financeiro, depois da onda de ataques via Pix, o Banco Central passou a estudar — e em parte já aplicar — restrições de horário, valor e acesso para instituições que não comprovarem requisitos mínimos de segurança, além de poder suspender o acesso ao Sistema de Pagamentos Instantâneos de quem for considerado "frágil". Na saúde, o episódio do ConecteSUS acelerou discussões sobre a aplicação da LGPD (Lei Geral de Proteção de Dados) a órgãos públicos e levou a Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD) a cobrar explicações formais do Ministério da Saúde.

No plano nacional, o Decreto 10.222/2020 instituiu a Estratégia Nacional de Segurança Cibernética (E-Ciber), com metas como fortalecer a governança cibernética, ampliar a cooperação internacional e elevar o nível de maturidade da sociedade brasileira no tema — um esforço que, pelos próprios números de confiança levantados pelo Fórum Econômico Mundial, ainda tem um caminho longo pela frente.

Linha do tempo: os incidentes que mudaram as regras do jogo

Durante a pandemia, a holding do grupo Energisa enfrentou um grave incidente de segurança. As operações de transmissão e distribuição — parte mais sensível da infraestrutura — não foram atingidas, mas o caso expôs a necessidade de separar claramente redes administrativas de redes operacionais.

Em fevereiro, a subsidiária da Eletrobras responsável por Angra 1 e Angra 2 sofreu um ataque de ransomware na área administrativa. Não houve impacto nas usinas, mas o episódio foi o estopim direto para a criação da primeira rotina de cibersegurança obrigatória do ONS, ainda naquele ano.

Em dezembro, o grupo Lapsus$ tirou do ar o site do Ministério da Saúde e o aplicativo ConecteSUS, alegando ter copiado e apagado 50 terabytes de dados, incluindo registros de vacinação contra a Covid-19. Os dados foram recuperados em poucos dias, mas o caso expôs a fragilidade de sistemas públicos de saúde que concentram dados sensíveis de toda a população.

Criminosos invadiram a C&M Software, empresa que conecta bancos e fintechs menores ao Pix, e desviaram valores estimados entre R$ 800 milhões e R$ 3 bilhões. O Banco Central precisou desligar temporariamente a infraestrutura da empresa, afetando a conexão de 293 instituições ao sistema de pagamentos.

Em março, o BTG Pactual suspendeu operações de Pix após um ataque hacker desviar cerca de R$ 100 milhões. Meses depois, o Banco do Nordeste também suspendeu o serviço temporariamente após identificar uma invasão em sua infraestrutura. Os episódios levaram o Banco Central a estudar regras mais duras de acesso ao sistema.

AUTOAVALIAÇÃO RÁPIDA

E você, estaria protegido?

Responda às quatro perguntas abaixo pensando na sua empresa, no seu time de TI ou até na sua própria rotina digital. No fim, você vê seu resultado.

1. Seus sistemas críticos de administração ficam na mesma rede dos sistemas que de fato operam equipamentos (produção, pagamentos, atendimento)?
2. Fornecedores terceirizados (softwares, gateways, prestadoras de serviço) têm acesso a credenciais privilegiadas sem autenticação multifator?
3. Existe um plano formal de resposta a incidentes, testado pelo menos uma vez por ano?
4. Vocês já avaliaram riscos específicos de ferramentas de inteligência artificial antes de colocá-las em produção?
FONTES E LEITURA RECOMENDADA
  1. World Economic Forum — Global Cybersecurity Outlook 2026 (Executive Summary)internacional
  2. World Economic Forum — Why energy leaders need to prepare for the cybersecurity threat of more powerful AIinternacional
  3. World Economic Forum — How to secure the energy transition against next-gen cyber threatsinternacional
  4. Kaspersky — Digital Footprint Intelligence, relatório sobre ciberataques a hospitais e setor de saúdeinternacional
  5. TXOne Networks — Relatório anual de incidentes OT/ICSinternacional
  6. Alertas conjuntos de agências como FBI, CISA, EPA e NSA sobre exposição de controladores industriais na internetinternacional
  7. PwC Brasil — A evolução do setor elétrico diante das ameaças cibernéticas
  8. Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) — Rotina Operacional RO-CB.BR.01 e procedimentos de rede
  9. ANEEL — Resolução Normativa nº 964, de 14 de dezembro de 2021
  10. Banco Central do Brasil — comunicados sobre segurança do Pix e do Sistema de Pagamentos Instantâneos
  11. Ministério da Saúde / ANPD — comunicados oficiais sobre o ataque ao ConecteSUS (dezembro de 2021)
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